Cenários 2035

Cenários transformadores são histórias que descrevem o que pode acontecer no futuro, não são previsões ou recomendações do que deveria acontecer.

O reconhecimento de que uma situação é inaceitável ou insustentável, de que um ator isolado não pode mudar o sistema, que mudanças diretas são impossíveis ou insuficientes e que existe vontade para mudar a realidade atual são o ponto de partida para um processo de cenários transformadores.

Construir cenários futuros é um exercício de suspender nossos desejos e nossas respostas, olhar para além de nossas previsões e projeções e abrir-nos para pensar uma variedade de futuros possíveis.

Embora não possamos prever ou controlar o futuro, os cenários nos permitem lidar com o fato de que podemos influenciá-lo, inspirando e estimulando a elaboração de estratégias, decisões e ações que influenciem a realidade do sistema da moda no Brasil.

Futuro não está dado, ele é criado.

O PLANEJAMENTO DE CENÁRIOS TRANSFORMADORES TEM SIDO USADO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS EM CONTEXTOS DIVERSOS E COMPLEXOS. POR EXEMPLO, NA TRANSIÇÃO DO APARTHEID NA ÁFRICA DO SUL, NOS MOMENTOS DE MAIOR CONFLITO NA COLÔMBIA, NO PÓS-GUERRA CIVIL NA GUATEMALA E NA QUESTÃO DAS DROGAS NAS AMÉRICAS NUM MOMENTO DE GRANDE INCERTEZA E DEBATE.

A construção dos cenários segue um processo rigoroso, que é, ao mesmo tempo analítico e criativo.

A equipe começa identificando seu mapa de preocupações, ou seja, quais são os temas mais importantes quando olhamos para a Moda no Brasil. Em seguida o grupo define o horizonte de tempo dos cenários. Depois, o grupo faz o mapeamento das forças motrizes, ou seja, aquelas forças sociais, tecnológicas, ambientais, econômicas e políticas que podem ter um grande impacto nos temas do mapa de preocupações.

As forças são então classificadas em dois eixos: previsibilidade e impacto. Na construção de cenários, o que mais importa são as forças que têm alto impacto. Considerando as forças, a equipe define as certezas sobre o sistema no futuro, que passam a compor todos os cenários e as incertezas, que diferenciam um cenário do outro, levando a diferentes futuros.

Foram sistematizadas nove certezas sobre o futuro da moda no Brasil em 2035:

  • A qualidade das políticas públicas impactará o setor;
    Haverá mudança de comportamento do consumidor;
  • Haverá uma ressignificação do que é força de trabalho;
  • O fluxo migratório continuará;
  • O lucro continuará impactando decisões nas empresas;
  • A tensão entre lucratividade e sustentabilidade ainda será presente na mentalidade do setor;
  • As mudanças climáticas afetarão a disponibilidade de recursos naturais, levando a rearranjos na cadeia;
  • A tecnologia impactará o setor do vestuário na forma como produzimos, comercializamos e nos relacionamos com a moda;
  • O consumo de vestuário continuará.

Critérios − por meio de um processo criativo, a equipe imaginou inicialmente 30 cenários possíveis, agrupando e selecionando as características mais importantes para que cada um deles inspirassem estratégias, decisões e ações no futuro. Para isso os cenários deveriam atender quatro critérios, sendo:

  • Relevantes: abordar questões importantes para quem tem interesse no tema;
  • Desafiadores: ajudar as pessoas a olhar para opções antes impensáveis ou imperceptíveis e desafiar a maneira atual de pensar sobre a realidade;
  • Plausíveis: ser razoável, acreditar que eles podem ocorrer, pois estão baseados em fatos e possuem uma lógica;
  • Claros: fáceis de lembrar e simples de descrever, sendo possível distinguir as particularidades de cada história

Histórias − A criação de histórias que sejam, ao mesmo tempo, plausíveis e desafiadoras não é uma tarefa simples. A riqueza das histórias que vamos ler está na capacidade de se aproximar dos limites da plausibilidade sem contudo, cruzar a ponte para o reino do absurdo ou do impossível. Após muito debate, a equipe conseguiu chegar a quatro cenários distintos entre si.

O passo seguinte foi imaginar coletivamente, com base em dados e casos reais, uma série de fatos que aconteceriam a partir de 2018 para que cada cenário se realizasse em 2035. Tecidas as narrativas, foram inseridas no início de cada cenário algumas citações das entrevistas com os atores sociais, conduzidas no início do processo, que dialogam com o conteúdo das narrativas.

Os quatro cenários criados não refletem a opinião individual dos membros da equipe do Projeto líderes atuantes e influentes na cadeia do vestuário e na moda no Brasil, envolvidos e comprometidos com sua melhoria, nem das instituições em que atuam, mas sim o que a equipe do projeto em conjunto imaginou que pode vir a acontecer no futuro da moda no Brasil até 2035.

Os Cenários

IMAGINANDO QUAIS OS POSSÍVEIS FUTUROS DA MODA NO BRASIL EM 2035.

Costura solta

Retrocesso generalizado com conflitos políticos e econômicos, individualismo generalizado e o protecionismo no comércio internacional levam a um mercado da moda fundamentalmente orientado ao lucro. A colaboração entre os setores é frágil. A economia brasileira está em crise e o investimento em educação e tecnologia é baixo. Há poucos mecanismos de controle social sobre o trabalho precário, situação que é agravada pelo aumento do desemprego provocado pela substituição de mão de obra por produção automatizada e por fluxos migratórios intensos no continente.

Costura amarrada

Há predomínio da forca do Estado interventor, buscando regular as ações dos demais setores. O Estado detém o monopólio do Big Data e a fiscalização aumenta na cadeia produtiva da moda, tanto nas questões trabalhistas, como ambientais. A baixa participação na construção das políticas públicas diminui a inovação e investimentos em tecnologia, que vem do setor privado. O diálogo é enfraquecido e a desigualdade persiste. Os shoppings são os espaços preferenciais para experienciar o consumo, o comércio online predomina.

Costura em rede

A colaboração entre estado, empresas e sociedade civil organizada assume um papel estratégico no país com a união entre elos da cadeia. Questões sociais e ambientais ganham relevância na medição dos resultados da cadeia da moda em geral e das empresas que a compõem. Há um forte investimento em ciência e tecnologia. Diminuem as vagas de trabalho no setor, em função do avanço tecnológico, mas melhoram sensivelmente as relações trabalhistas. O Brasil entra na era da customização da moda, com descentralização da produção e difusão de minifábricas e o consumidor exige produtos mais sustentáveis.

Cybercostura

Consecutive disruptive technology advances Saltos tecnológicos seguidos transformam o mundo da moda. Novos materiais substituem matérias primas convencionais, a produção se moderniza e a formação dos profissionais é diversificada e aprofundada. Há grande redução de postos de trabalho, mas criação de novos mecanismos de proteção social. – como diminuição da jornada, para garantir mais emprego. A economia da moda caminha para um modelo circular, em decorrência da crise ambiental que afeta a consciência da sociedade e a pressão por uma produção sustentável.

Este documento apresenta os Cenários sobre o Futuro da Moda no Brasil em 2035, um conjunto de quatro cenários relevantes, desafiadores, plausíveis e claros. Cenários são histórias que descrevem o que pode acontecer no futuro, e não o que acontecerá (previsões) ou o que deveria acontecer (recomendações). Eles foram usados como insumo para a segunda fase do projeto, cuja intenção é criar e prototipar iniciativas multissetoriais que tragam inovações para melhorar a cadeia do vestuário no Brasil nos próximos anos.

A tabela a seguir tem o intuito de facilitar a comparação entre os quatro cenários a partir dos diferenciadores definidos pela Equipe do Projeto. Os sete diferenciadores detalhados a seguir são: 1. Modelo de Negócio e Cadeia de Valor; 2. Economia e Mercado; 3. Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação; 4. Cultura e Consumo; 5. Trabalho e Trabalhador(a); 6. Questões Ambientais/Recursos Naturais; 7. Relações entre Atores: Governo, Empresas, Sociedade Civil Organizada e Trabalhadores(as).